O Dia Internacional da Mulher terá um sabor especial para a ABRH-Nacional em 2010.
Pela primeira vez em seus quase 45 anos, a associação elegeu uma mulher para a presidência.O pioneirismo da carioca Leyla Nascimento é reforçado pela parceria com a paulista Elaine Saad na vice-presidência. Nesta entrevista, elas comentam a atuação de RH e falam dos desafios enfrentados na associação.
ABRH - A área de RH é predominantemente feminina. Um dos referenciais disso é o CONARH, evento promovido pela ABRH-Nacional, no qual, dos cerca de 12 mil participantes, mais de 60% são do sexo feminino. Existe uma lista de competências que justifique isso?
LEYLA NASCIMENTO - Socialmente, amulher é cobrada para dar atenção em primeiro lugar à
família e só depois a ela mesma. E a área de RH é basicamente voltada ao atendimento das pessoas em suas necessidades e seu desenvolvimento, o que envolve temas como qualidade de vida, dinâmica de grupo, processos de recrutamento e seleção, avaliação e feedbacks, com os quais o público feminino, a partir da vivência em sociedade, tem mais habilidades para lidar.
ELAINE SAAD - Exatamente. Há competências que são intrínsecas a cada ser humano, mas existe um conjunto delas que, normalmente, aparece mais em mulheres, como a intuição, a visão emocional dos fatos, o acolhimento das pessoas,a sensibilidade para compreender o outro e se colocar no lugar dele. Como RH lida comgente, pode haver uma correlação com essas competências.
ABRH - RH vem ganhando força estratégica nas empresas. Com isso, a participação masculina na área poderá aumentar?
ES - A área de RH é sempre aberta a diversos tipos de profissionais. Nos últimos anos, tivemos o ingresso de muitos homens, mas, também, a ascensão de muitas mulheres a cargos de comando. As organizações estão atrás de executivos de RH que tragam resultados através de pessoas e que ajudem os líderes a fazer o mesmo. Esse executivo ser homem ou mulher é o fator de menor relevância.
LN - A tendência é que exista maior diversidade na formação dos profissionais e isso se deve a dois motivos: porque RH é um tema ligado à liderança de qualquer área da empresa e por que o profissional de RH caminha para ser o gestor da cultura organizacional, o que também acaba atraindo outras áreas. Os gestores perceberam que, entre seus atributos, há um ponto crucial: lidar com as relações humanas e com os processos que envolvem as pessoas, como a retenção de talentos. Nesse sentido, por dar aos líderes aporte para o sucesso, nossa área temsido bastante cobiçada. A própria ABRH sente essa mudança no perfil de seus associados nos diversos Estados em que está presente.
ABRH - Esse novo papel tem levado RH a buscar mais conhecimento?
LN - Sem dúvida. Por trabalhar na área de Humanas, não tínhamos a visão de que estávamos envolvidos diretamente com os resultados e a performance financeira. Hoje, RH tem de entender de finanças, de marketing, dos aspectos jurídicos. Sabemos que é preciso entender do negócio diante de um planejamento estratégico delineado pela organização e conhecer os impactos diretos dos custos das relações trabalhistas no resultado financeiro.
ABRH - Embora sejam maioria em RH, as mulheres, assim como acontece em outras áreas, têm
mais dificuldade de ocupar cargos de liderança. A que se deve isso?
LN - Acredito que ainda seja um reflexo da cultura latina, porque, quando existe a oportunidade, amulher vai emfrente, aceita o desafio e se entrega à função de líder. O Brasil já caminhou muito nesse aspecto, tanto que, segundo um levantamento, em breve, no futuro, a presidência das nossas empresas será ocupada majoritariamente pelas mulheres.
ES - Concordo que muitas mulheres trabalham em organizações com quadros executivos mais masculinos, o que dificulta seu crescimento, mas também acredito que outras não aceitam cargos de liderança por não querer abrir mão de seu papel na família. Entretanto,ter equilíbrio na diversidade das lideranças,inclusive em relação ao gênero, é prioritário para a empresa que deseja obter o melhor e mais completo resultado de seu time.
ABRH - As mulheres se destacam também no voluntariado em RH, e, neste caso, não só em quantidade , mas ocupando cargos de liderança: das 23 ABRHs existentes no Brasil, 16 são presididas
por mulheres. Entretanto, na ABRH-Nacional, a última eleição se tornou histórica por eleger uma mulher para presidente. A que se atribui essa diferença?
LN - Não acredito que exista uma explicação lógica para isso. Costumo dizer, simplesmente, que sou ponto fora da curva.
ABRH - Quais são as características exigidas de um líder voluntário?
LN - A ABRH-Nacional não é diferente de uma média empresa. Temos representação em 23 Estados e não é fácil liderar uma organização com uma abrangência como essa. Mais, numa associação como a ABRH, a profissionalização e o zelo pelo voluntário têm que ser muito maiores, porque o nosso desempenho vai se refletir na imagem dos nossos pares nas empresas. Também é muito difícil você ter que demitir um voluntário, assim como estimulá-lo a participar da entidade respeitando suas limitações de tempo. Como presidente da ABRH-RJ [cargo exercido de 2004 a 2009] e, agora, na presidência da Nacional, faço reuniões setoriais com as diretorias, porque é preciso manter as pessoas mobilizadas dia a dia. Disponibilizo o meu tempo de acordo com a disponibilidade dos voluntários. Se eles querem contribuir, o líder tem que ouvi-los. Nesse sentido, tenho sempre comigo a pergunta "por que não?". Se um diretor traz uma nova ideia, por mais difícil que pareça implementá-la, estarei com ele até o fim para tentar viabilizá-la.
ABRH - Duas mulheres nos principais cargos podem trazer um diferencial no estilo de gestão da associação?
ES - Toda nova gestão nova traz novas contribuições, mas acredito que a ocupação desses cargos por mulheres trará à Nacional algumas diferenciações importantes, como um estilo mais suave, mais integrador e mais participativo de Gestão.
Jornal O Estado de São Paulo